Enquanto a variação da conta de luz preocupa a maioria da população, alguns moradores do Distrito Federal conseguem pagar o valor mínimo cobrado pela Companhia Energética de Brasília (CEB). Só nos últimos 12 meses, a inflação no setor local foi de 20,64%, mas essas pessoas não sofrem com os aumentos porque produzem a própria eletricidade por meio do sistema de energia fotovoltaica. O investimento, no entanto, ainda é alto e o retorno só aparece a longo prazo.

No DF, existem 512 instalações solares conectadas à rede de distribuição da CEB, sendo 85% delas em residências. Entre os prédios públicos, apenas 11 possuem o sistema. Os dados são da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Uma casa no Lago Norte, com mais de 800m², chama atenção de quem passa pela rua. Não é só pelo tamanho, mas por causa do telhado: as placas de energia solar ocupam grande parte do espaço disponível. Algumas são térmicas, instaladas pelo proprietário há 13 anos, e servem para aquecer a água do chuveiro e da piscina. No ponto mais alto da estrutura, estão as mais novas: as fotovoltaicas, que fazem funcionar lâmpadas, aparelhos de ar-condicionado, televisores, geladeiras, freezers, sauna e outros.

Gilberto Azevedo, de 63 anos, é o dono da propriedade. Ele conta que, durante uma viagem à Alemanha, percebeu a existência das placas por onde andou. Depois disso, em 2016, pesquisou sobre o assunto e resolveu investir R$ 70 mil na instalação do sistema. “Eu sou meio ‘ecochato’, gosto de preservar. Quando coloquei, havia poucos em Brasília”, revela.

O sistema é de compensação, regulamentado pela Resolução nº 687/2015 da Aneel, explica Rafael Shayani, professor de engenharia elétrica da Universidade de Brasília. O que não é utilizado na residência vai para o sistema da CEB. “Quando a casa não produz energia suficiente, recebe da rede como qualquer outro imóvel”, explica.

Tudo é registrado pelo relógio de medição. Se a saída de quilowatts-hora (kWh) for maior do que a entrada, o morador fica com crédito na concessionária. Esse excedente pode, inclusive, ser transferido para outras pessoas no prazo de 60 meses. Gilberto, por exemplo, tem saldo superior a 600kWh e pensa em solicitar o abatimento na conta do filho. “A CEB é que está me devendo”, brinca.

Outro morador da região, o professor Flavio Rene Kothe, de 71 anos, investiu R$ 30 mil para instalar 16 placas fotovoltaicas em casa. O resultado foi uma conta cinco vezes menor. “Antes, eu gastava cerca de R$ 500 por mês e agora só pago os R$ 100 obrigatórios. Fico admirado de tão pouca gente ter colocado isso nos telhados aqui em Brasília”, conta.

Toda a energia que entra e sai da casa dele é monitorada por um aplicativo no celular, que pode ser acessado de qualquer lugar com sinal de internet disponível. “Observei que no inverno a produção tende a ser de 10kWh a 12kWh, por dia. No verão, vai de 20 a 22kWh”, comenta.

Investimento alto

Das 435 residências com placas fotovoltaicas no DF, a maior concentração fica no Lago Sul e no Lago Norte. Segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, isso se explica devido ao alto poder aquisitivo dos moradores e à área disponível nos telhados.

Ainda para poucos, a produção de energia solar está ficando mais acessível. Em abril de 2018, por exemplo, o Ministério da Integração Nacional anunciou a destinação de R$ 50 milhões do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) para aquisição dos equipamentos necessários.

Em junho, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou, no bojo do Programa Fundo Clima, crédito para a instalação de sistemas sustentáveis.

Há 13 anos, o auditor governamental Diones Gomes, de 50 anos, não usa chuveiro elétrico em casa. Em 2017, durante reforma da parte externa do imóvel onde mora, no bairro Jardim Botânico, além de ampliar o sistema térmico existente, ele resolveu instalar 12 placas fotovoltaicas. O investimento foi de R$ 35 mil, com retorno previsto em cinco anos.

Conforme cálculo feito pelo professor Rafael Shayani, para uma casa menor, o investimento é um pouco mais baixo: supondo que uma residência com 300kWh por mês tenha uma conta média de R$ 160, o ideal seria um sistema com potência de 10kW, que custaria em torno de R$ 12 mil. “A pessoa recuperaria o investimento em sete anos”, explica.

Quem pretende adotar a iniciativa deve procurar uma empresa especializada para fazer a instalação. O projeto deve ser aprovado pela CEB, que fará a vistoria no local após a execução da obra.

Potencial subaproveitado

Um estudo feito pela UnB em parceria com a ONG WWF-Brasil, divulgado em novembro de 2016, mostra que Brasília é uma das cidades com maior potencial para produção de energia solar do país. De acordo com a pesquisa, se apenas 0,41% da área da cidade fosse coberta com as placas, a eletricidade produzida seria suficiente para abastecer todo o território.

Para o presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, uma das medidas para melhorar o cenário seria a atualização de incentivos tributários para favorecer os investimentos. “O Distrito Federal apresenta os melhores índices de radiação do Centro-Oeste”, comenta.

Fomento

Segundo o GDF, o programa Brasília Solar conta com várias ações para o desenvolvimento da tecnologia, como dispensa de licenciamento ambiental para a atividade e isenção de ICMS sobre a energia gerada. A perspectiva do governo é de crescimento na ordem de 50% ao ano, a partir de 2019.

Outro foco é a implantação em prédios públicos. De acordo com dados da Aneel, apenas 10 edificações federais e distritais possuem energia solar. Para tanto, a Secretaria de Meio Ambiente firmou um acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) para o desenvolvimento da geração de eletricidade nos órgãos do GDF. A previsão é de que sejam instalados sistemas fotovoltaicos com potência total de 600kW em hospitais e escolas nos próximos dois anos.

 

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